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Epoca - 2021-05-31

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MOTOCIATA

SUMÁRIO

Por Renato Onofre

Passeio de Bolsonaro de motocicleta pelo Rio é uma demonstração da resiliência política de seu nome no universo conservador, mesmo mergulhado num mar de problemas Três dias depois de dizer que voltou a ter sintomas da Covid-19, o presidente Jair Bolsonaro cruzou a cidade do Rio de Janeiro — da Barra da Tijuca, na Zona Oeste, ao Aterro do Flamengo, na Zona Sul — em cima de sua Honda NC 750X azul no domingo 23. Ao lado dele, milhares de motoqueiros acompanharam o trajeto de mais de 40 quilômetros dando uma dimensão real ao tamanho do bolsonarismo no país. Sob a ótica de mais de 450 mil mortes provocadas pela pandemia do coronavírus, a cena da “motociata” presidencial provoca indignação de parte da sociedade que entende a gravidade da atual realidade e não compreende como um governante promove tais eventos. Contudo, as cenas do último domingo são também a demonstração de uma resiliência e consistência política do presidente, apesar de todos os problemas enfrentados nos últimos anos. E isso pode ser decisivo para 2022. O presidente chegou ao Parque Olímpico da Barra da Tijuca por volta das 9h30, acompanhado pelo ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello. Lá, sem máscara, cumprimentou apoiadores que o aguardavam, apesar de decretos em vigor na capital fluminense determinarem o uso obrigatório da proteção em qualquer ambiente público, assim como distanciamento mínimo de 1,5 metro e a proibição da realização de eventos em áreas públicas — mais duas violações também cometidas no passeio. De máscara, o governador do estado e aliado fiel, Cláudio Castro, esteve presente e cumprimentou o presidente. O passeio de moto teve início por volta das 10 horas. O comboio percorreu dezenas de ruas e avenidas da cidade escoltado por dezenas de veículos deslocados de 20 unidades da Polícia Militar. Cerca de 1.000 agentes foram destacados “a fim de garantir a ordem e a segurança da população durante o ato”. Não houve contagem oficial dos presentes, mas a dimensão pode ser medida pela observação. Em alguns trechos do percurso, como na Avenida Atlântica, em Copacabana, se a moto do presidente — uma das primeiras da fila — passasse por alguém parado na orla, demoraria mais de 30 minutos para que o último veículo do comboio cruzasse o mesmo local. Oato ocorreu em um dos momentos mais delicados para Bolsonaro. A gestão federal durante a pandemia está sendo escrutinada em tempo real no Senado — e nas redes sociais — pela CPI da Covid, montada para investigar o governo. O atual ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, e seu último antecessor, o general Eduardo Pazuello, foram confrontados por parlamentares da oposição durante seus depoimentos. Outros aliados do presidente, como o ex-secretário de Comunicação Fabio Wajngarten, quase saíram presos da sessão. O desgaste é comprovado em números. De acordo com a última pesquisa do instituto Datafolha, o mandatário tem a aprovação de 24% dos brasileiros, a pior marca de seu mandato até aqui. O percentual dos que consideram a gestão ótima ou boa era de 30% em março, quando foi feito o levantamento anterior. Os que rejeitam o governo, considerando-o ruim ou péssimo, são 45% dos entrevistados em 146 municípios de todo o Brasil. A série histórica da pesquisa mostra que, de dezembro para cá, a popularidade de Bolsonaro derreteu. No último mês de 2020 atingia o recorde de 37% e foi caindo paulatinamente até chegar ao atual patamar. A nova rodada do levantamento mostrou ainda que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), seu principal adversário, lidera a corrida para a Presidência. E que outros possíveis adversários, como o ex-ministro Ciro Gomes (PDT) e o apresentador Luciano Huck o venceriam em um eventual segundo turno. Apesar de todo esse cenário negativo, a demonstração deixa claras a resiliência e a consistência política do presidente. Como Lula fez dentro do campo da esquerda, Bolsonaro conseguiu consolidar uma base orgânica de apoiadores que deverá fazer dele um forte concorrente em 2022. A fé desse grupo, que percorreu com ele as ruas do Rio — e Brasília no mês anterior — parece inabalável. Os apoiadores do presidente ignoram até mesmo as evidentes fragilidades da política do governo, que teve de entregar fatias consideráveis do Orçamento ao centrão, base política fisiológica do Congresso, e a lenta retomada da atividade econômica depois de o país ter, em 2020, o maior recuo do PIB em 30 anos, com queda de 4,1%. A resiliência bolsonarista é a consolidação de uma unidade conservadora aos moldes do que ocorreu entre progressistas com o lulismo. O ex-presidente petista mesmo no auge do escândalo da Lava Jato mantinha um percentual de aprovação acima dos 20% — hoje beira aos 50%. Tanto Bolsonaro quanto Lula partem de patamares robustos de, ao menos, 20% do eleitorado. A construção de uma terceira via tenta crescer afunilada entre esses dos monolitos. E, até o momento, não há nenhum nome posto que dê sinais de conseguir romper esses dois blocos maciços.

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