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Epoca - 2021-05-31

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SISTEMA IMUNOLÓGICO NACIONAL

SUMÁRIO

Por Letícia Helena, Pollyanna Brêtas e Cássia Almeida

O Fórum de Saúde Brasil traçou caminhos para o país produzir as próprias vacinas Aimunização tornou-se hoje a necessidade mais urgente do Brasil. E por isso a dependência que o país tem de insumos externos — atualmente a principal razão para o atraso na produção de vacinas — ocupou o centro das conversas do Fórum de Saúde Brasil em seu último dia, a segunda-feira 24. Promovido por ÉPOCA e pelos jornais O GLOBO e Valor Econômico, o Fórum reuniu especialistas que discutiram, em seis mesasredondas on-line, os problemas mais candentes da saúde pública e privada brasileira. Na manhã de segunda-feira, o tema “O papel da indústria farmacêutica na produção de vacinas seguras contra a Covid-19” foi debatido por Isabella Ballalai, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIM); por José Carlos Felner, presidente da farmacêutica GSK no Brasil; e Mauricio Zuma, diretor de Bio-manguinhos/fiocruz. Entre os tópicos mais candentes da conversa, esteve a quebra das patentes de vacinas. Essa proposta ganhou fôlego depois que o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, defendeu a suspensão das regras de propriedade intelectual relacionadas a imunizantes contra a Covid-19. Em tese, seria um meio de minimizar a desigualdade global na vacinação. De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), dos quase 1,5 bilhão de doses já aplicadas, apenas 0,3% chegou à população que vive em países pobres. Na avaliação dos especialistas, porém, a quebra de patentes não aumentaria a oferta de vacinas a curto prazo. Zuma explicou que a medida não garante que os países pobres consigam produzir o imunizante, tarefa que depende de transferência de tecnologia e de processos industriais complexos. “O licenciamento compulsório não vai estabelecer a produção rápida. Pelo contrário, há casos em que será preciso voltar para a fase de estudos clínicos”, ponderou. Feler concordou: “Feito de maneira atabalhoada, isso não vai adiantar. É preciso transferir conhecimento”. Ele arrolou dados sobre o desenvolvimento de vacinas pelo mundo: hoje há 173 vacinas — uma delas produzida pela GSK em parceria com a Sanofi — em estágio pré-clínico, ou seja, na fase de estudo e antes de testes para sua validação; e outros 63 imunizantes em fases preliminares de pesquisa. Isabella Ballalai elogiou a transferência de tecnologia realizada na produção de vacinas no Instituto Butantan e na Fiocruz: “O que nos dá segurança para o futuro é ter essa produção”, afirmou. Zuma informou que Bio-manguinhos/fiocruz começará a produzir em outubro a vacina com IFA (Insumo Farmacêutico Ativo) nacional. A produção do IFA, componente essencial das vacinas, foi justamente o tema da mesa da tarde, intitulada “A falta de insumos e a dependência externa para a produção de vacinas”. Participaram Antonio Carlos Bezerra, presidente executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Química Fina, Biotecnologia e suas Especialidades (Abifina); Celio Hiratuka, diretor associado do Instituto de Economia da Unicamp; Nelson Mussolini, presidente executivo do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma); e Ricardo Gazzinelli, pesquisador da Fiocruz e professor da UFMG. Houve consenso sobre a expertise do meio científico brasileiro e dos médicos do sistema de saúde. Faltaria ainda articulação entre governo, institutos de pesquisa, universidades e setores privado e público de saúde para corrigir a dependência de insumos estratégicos — no caso, o IFA, hoje importado sobretudo da China. Na avaliação de Bezerra, o Brasil, entre os anos 1980 e 1990, “escancarou as portas para a concorrência internacional, sem ter feito o dever de casa”. “Precisamos de uma política de Estado que olhe esse segmento de uma maneira estratégica”, disse o presidente da Abifina. Hiratuka acrescentou que o Brasil precisa correr para se atualizar na revolução tecnológica das vacinas. Em sintonia com essas preocupações, Mussolini defendeu que o governo pode propiciar a construção de uma indústria farmacêutica forte não com incentivos fiscais, mas só com seu poder de compra. Gazzinelli trouxe números, estimando que, para fazer um protótipo de vacina, seria necessário um investimento em torno de R$ 1 bilhão, incluindo a instalação da estrutura para produção. A partir daí, porém, a autossuficiência do país na imunização da população estaria virtualmente garantida. Em outra frente, o pesquisador calculou que um laboratório-piloto para a produção de IFAS custe algo entre R$ 30 milhões e R$ 40 milhões. “Um único IFA comprado nos Estados Unidos custa R$ 10 milhões. Produzindo três ou quatro no Brasil, o investimento seria pago”, concluiu.

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