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Epoca - 2021-05-31

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TECNOLOGIAS NÃO APENAS MILITARES

SUMÁRIO

por Tânia Monteiro

Irradiação de alimentos — que prolonga a vida de frutas, por exemplo — e dispositivos de assistência cardiovascular são alguns dos projetos das Forças Armadas para a utilização de recursos concebidos a princípio com propósitos de defesa Oexemplo, convenhamos, é radical, porém ilustra de maneira extraordinária quanto uma tecnologia originalmente concebida para fins militares pode encontrar utilidades, nada bélicas, no dia a dia de pessoas comuns. Foi nos laboratórios das Forças Armadas americanas que, na década de 1960, nasceu este sinônimo da era digital: a internet. Em plena Guerra Fria, havia a preocupação do Pentágono de que arquivos secretos fossem preservados, mesmo na remota hipótese de um ataque soviético ao território dos Estados Unidos. Surgiu então a Arpanet, que conectava, por meio de cabos telefônicos, computadores do governo, os quais, desse modo, podiam compartilhar entre si documentos sigilosos. Pois a Arpanet viria a ser a matriz da web, a onipresente rede mundial que conhecemos hoje. Histórias parecidas à da internet têm o GPS, os equipamentos de ressonância magnética, o Teflon das panelas e frigideiras. Todos carregam consigo o traço da dualidade. “Na verdade, essa é uma característica dos produtos de defesa mundo afora: algo a princípio desenhado para um emprego operacional militar ou estratégico, ou ao menos testado pioneiramente com tal fim, e que sempre transborda para o uso civil, com mais ou menos pressa, dependendo do segmento”, observou Marcos Degaut, que responde por essa área no Ministério da Defesa. No Brasil, a dualidade já integrava a Estratégia Nacional de Defesa, aprovada em 2008, e se manteve na Política Nacional de Defesa, de 2012, a qual explicitava, segundo Degaut, “que o fomento dessa indústria deve considerar o uso diversificado das tecnologias”. “Inovação” é o mantra das Forças Armadas do país nesse front. Não é outra a bússola que orienta, por exemplo, os esforços para a instalação de centros de irradiação que utilizem tecnologias nucleares de esterilização de alimentos. Empregado especialmente em frutas e proteína animal, esse recurso — desenvolvido nos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial e consolidado em decorrência das viagens tripuladas ao espaço — multiplica por três a vida útil de tais produtos, eliminando a contaminação por micro-organismos. Isso, sem transmitir radioatividade, ao contrário do que se poderia supor. O sistema é usado em larga escala pelos americanos, no México e, sobretudo, nas nações asiáticas.

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