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Epoca - 2021-05-31

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HELIO GUROVITZ

SUMÁRIO

HELIO GUROVITZ É JORNALISTA, EDITOR DE OPINIÃO DO JORNAL O GLOBO H.G.

Que sua indulgência me liberte Atempestade foi a peça escolhida para abrir a primeira edição das obras de Shakespeare, publicada postumamente em 1623. Escolha curiosa porque, embora não tenha sido a última que ele escreveu, foi a última que escreveu sozinho. Três outras viriam ainda em colaboração com John Fletcher, mas aquela era de certa forma o testamento literário do maior escritor de todos os tempos. O tom de despedida está presente na voz do personagem principal, Próspero, duque de Milão exilado numa ilha mediterrânea com a filha Miranda e os livros que pôde salvar de sua biblioteca depois que seu trono fora usurpado pelo irmão. Estudando os saberes herméticos, torna-se um mago capaz de domar as forças da natureza, invocar espíritos e escravizar um selvagem nativo. Conjura a tempestade do título para atrair à ilha o navio em que o usurpador viajava acompanhado de nobres e servos. Cria as condições ideais para se vingar e no final… perdoa. Liberta seu escravo, entrega Miranda em casamento ao filho do rei e recebe seu ducado de volta. Renuncia à mágica, quebra o cajado encantado e lança ao fundo do oceano seu livro de sortilégios. A peça já foi considerada colonialista, machista e até futurista (entre as dezenas de adaptações, inspirou o filme Planeta proibido). Apesar do drama linear e previsível, Próspero se tornou papel obrigatório no cânone shakespeariano. Para mim, ele é John Gielgud, que faz as vozes de todo o elenco na versão de Peter Greenaway filmada em 1991 (na tela, o personagem principal são os livros). O crítico Harold Bloom comparava Próspero a um anti-fausto, por ter sido a resposta de Shakespeare ao Doutor Fausto do arquirrival Marlowe. Foi uma resposta mais humana ao enigma da existência: em vez de entregar a alma ao demônio em troca de poderes terrenos, Próspero abre mão de poderes sobrenaturais para voltar às raízes. De nada valiam os livros nem o domínio sobre espíritos que, na tradução de Barbara Heliodora, “derretem-se em ar, em puro ar”. Tudo — “as torres e os palácios encantados, templos solenes, como o globo inteiro” —, tudo some sem deixar rastro. Shakespeare dá então, na voz de Próspero, a melhor definição para o que é o humano: “Somos a matéria de que são feitos os sonhos”. Não há um sem o outro, e os sonhos encantados dos livros nada significam sem a matéria da vida. Livros foram o tema desta coluna ao longo de seis anos e quase quatro meses. Escrevi 324 textos, sobre 328 títulos de 323 autores. Um total de 330 volumes e, de acordo com as edições recomendadas, 113.728 páginas lidas em seis idiomas (quase 50 por dia). Tratei de literatura, política nacional e internacional, economia e negócios, tecnologia e comportamento, educação e matemática, ciência e pandemia, humor e filosofia, história e religião. É hora de parar. Se consegui levar alguém a também ganhar seu tempo lendo um pouco mais, já terá valido a pena. O autor que mais apareceu foi Shakespeare, tema de cinco colunas (três sobre peças dele, inclusive esta; duas sobre livros a respeito dele). Não há, portanto, livro melhor que A tempestade, nem personagem melhor que Próspero para encerrar. É com palavras dele — melhores que quaisquer palavras que eu jamais poderia ter escrito, traduzidas por quem melhor sabia fazer isso — que me despeço: A TEMPESTADE William Shakespeare, Lacerda Editora 1999 | 129 páginas | (esgotado)

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