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Epoca - 2021-05-31

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ESG e preservação da Amazônia

PERSONAGEM DA SEMANA

Oevento Cidadão Global, realizado pelo Santander Brasil, em parceria com o jornal Valor Econômico, é conhecido por abordar pautas urgentes do século 21 e engajar líderes cívicos e empresariais na busca de soluções para os problemas do planeta. Já estiveram no programa personalidades como o ex-presidente americano Barack Obama, o historiador israelense Yuval Noah Harari, o biólogo Jared Diamond, a atriz e ativista americana Viola Davis e a ganhadora do Nobel de Economia Esther Duflo – no ano passado, elas falaram sobre o futuro da globalização. A quarta edição do fórum, realizada no dia 25, convidou o ex-vice-presidente americano e Prêmio Nobel da Paz Al Gore; o presidente do Santander Brasil, Sérgio Rial; e o vice-presidente do Grupo Globo, José Roberto Marinho, para tratar das mudanças climáticas, da preservação da Amazônia, e da responsabilidade de governos e setor privado na construção de um futuro sustentável. Em uma conferência online, os participantes discursaram e participaram de um painel mediado por Luis Alberto Moreno, empresário e diplomata colombiano e ex-presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). LÍDER GLOBAL Em sua palestra, Al Gore declarou que vê sinais concretos de que há uma verdadeira transformação em andamento. “Tenho esperança de que seremos capazes de construir um futuro sustentável. A revolução que está acontecendo agora tem a capacidade de redesenhar o mundo e transformar o meio ambiente. Essa revolução global sustentável tem a capacidade de alcançar o mesmo impacto da Revolução Industrial.” Suas afirmações se amparam em uma série de argumentos, disse ele. “A transição para uma economia sustentável é a maior oportunidade de negócio desta geração. Uma nova era de transparência radical vai trazer um movimento de comprometimento de governos, empresas e investidores”, avaliou. O ganhador do Prêmio Nobel também citou a transformação da agricultura e o aumento da competitividade dos preços da energia eólica e solar e dos carros elétricos. Lembrou que a nova geração de jovens profissionais busca trabalhar em empresas comprometidas, o que faz da postura das corporações uma ferramenta de atração de talentos. Disse que a pressão também vem dos consumidores. E, em diferentes momentos de seu discurso, citou o Brasil. “O Brasil já é um dos líderes globais da transição para a energia renovável”, afirmou. “Tem destaque na geração de energia eólica e solar e grande potencial para o mercado de automóveis elétricos. Quando o hidrogênio se tornar uma fonte viável de energia, o que já está acontecendo, o País também tem condições de liderar esse mercado.” NOVOS MERCADOS Sérgio Rial concordou. “Estamos passando por um dos períodos mais transformadores da história da humanidade. Os consumidores estão mais criteriosos, o mundo está muito mais conectado, há uma revolução da ética em todas as frentes, temos a busca por uma vida mais equilibrada e a ascensão de um capitalismo mais responsável.” Nesse contexto, declarou ele, “as instituições financeiras estão no epicentro dessa rápida e dramática transformação”. E estão prontas para oferecer sua capacidade em aplicar inovação: “os mercados financeiros são inovadores, de modo geral. Precisamos encorajar o desenvolvimento de tecnologias limpas e escaláveis de baixo carbono”. Um resultado concreto seria exercer um papel mais ativo no desenvolvimento de um mercado de carbono com maior volume e padrões globais, disse ele. “O Brasil e os países vizinhos da região amazônica poderiam assumir a liderança em um esforço conjunto para acelerar o avanço de um mercado global de carbono.” FORÇA DA TRADIÇÃO Moreno, que exerceu a função de moderador, comentou: “O Brasil avançou tanto em iniciativas ambientais. Vocês têm feito um trabalho incrível ao longo dos anos”. E José Roberto Marinho comentou a enorme importância da mídia no papel de educadora e difusora de informações. Ele também concordou com o ex-presidente do BID a respeito do papel das comunidades tradicionais. “O futuro nos pede que possamos compreender que o Brasil é uma nação primeiramente indígena e que depois se construiu na interação com outros mundos”, declarou. “O que buscamos para o futuro, especialmente em áreas de floresta, é o conhecimento do que já estava aqui antes.” Feitas as apresentações individuais, Luis Alberto Moreno, empresário e diplomata colombiano e ex-presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), começou perguntando a Al Gore a respeito da Amazônia, e dos esforços que a comunidade internacional pode implementar para ajudar a proteger áreas da região. O ex-vice-presidente americano reagiu rapidamente: “O que acontece na Amazônia brasileira depende do Brasil. Nenhum outro país dirá ao Brasil ou a seu governo o que fazer, nem deveria”. Por outro lado, disse ele, “espero que todos aceitem suas responsabilidades no esforço global para solucionar a crise de clima. Meu primeiro conselho, já que você pediu um, é que os líderes, brasileiros e de todo o mundo, devem considerar as comunidades indígenas tradicionais para desenvolver suas políticas climáticas e de biodiversidade”. Afinal, lembrou ele, reservas de povos tradicionais ocupam apenas 22% da superfície ocupada do planeta, e ainda assim protegem 80% das espécies. Luis Alberto Moreno lembrou também que Al Gore é um investidor pioneiro em fundos de investimento ESG, um mercado que cresceu 40% ao longo de 2019 e 2020. Perguntou ao Prêmio Nobel, e também a Sérgio Rial, qual é o papel dos investidores para viabilizar a regulação do clima. “Sou muito otimista a respeito das oportunidades de investimento geradas pela revolução sustentável”, declarou Al Gore. “O que vemos é um claro reconhecimento do setor privado de que o assunto envolve todos os brasileiros. Os maiores bancos privados do País realizaram passos decisivos a respeito dessa questão”, complementou Rial. “Você não pode cuidar da f loresta sem pessoas e sem recursos”, ele prosseguiu. “E as culturas locais da Amazônia não receberam ainda os financiamentos necessários para que as comunidades alcançassem uma trajetória bem-sucedida de longo prazo.” CIÊNCIA BRASILEIRA O diplomata colombiano se dirigiu a José Roberto Marinho com uma pergunta: “Como usar as lições aprendidas durante a pandemia a fim de encarar os desafios trazidos pelas mudanças climáticas, e qual o papel da mídia nesse processo?”. Ao que ele respondeu: “O Brasil tem uma participação modesta na produção científica mundial, na ordem de 2%. Mas esse percentual salta para 10% na área de agricultura tropical e biodiversidade”. Marinho lembrou então que o Instituto Evandro Chagas, instalado na Amazônia, desenvolve um trabalho de referência em doenças tropicais. “Eles já identificaram e isolaram novos vírus até então desconhecidos.” Diante desse cenário, disse ele, a mídia tem a missão de confiar em fatos científicos e apresentá-los com a maior clareza e transparência. “A educação é fundamental para enfrentar a crise que está diante de nós, e para garantir que estes jovens estejam preparados para o enorme desafio que têm pela frente.” AJUDA DA ECONOMIA Luis Alberto Moreno questionou Al Gore sobre outro ponto: “O quanto são realistas os planos anunciados pelos países na direção de alcançar zero emissões até 2050 ou 2060? Afinal, é bom que haja metas de longo prazo, mas governos duram quatro ou oito anos”. O ex-vice-presidente americano respondeu que esses planos são, sim, realistas, “desde que os países comecem a agir agora, ainda nesta década”. E então descreveu o caso da China. “Eles são, de longe, o maior emissor de gases poluentes do mundo e têm um plano agressivo para expandir sua economia. Anteriormente, seus líderes declaravam que reduzir emissões impediria essa expansão. Mas a economia atual conta uma história bem diferente.” A China pode poupar US$ 1,6 trilhão nos próximos 20 anos, caso realize sua transição energética rapidamente. Sérgio Rial participou deste debate sobre as questões econômicas que suportam a revolução em curso. “O sistema financeiro é parte da solução e precisa se envolver mais com essa transformação”, lembrou, para depois citar o exemplo da proteína animal. “Com o uso de tecnologia, poderemos alcançar a rastreabilidade da pecuária em todo o território nacional, com efeitos muito positivos sobre a contenção do desmatamento.” Além disso, o custo do que se chamava de energia renovável caiu tremendamente. “Nos próximos anos veremos energia solar instalada em residências comuns em todo o País, porque os custos estão caindo.” Por fim, Rial fez um alerta: “Não podemos nos esconder atrás de nossas empresas. Precisamos, como indivíduos, mudar a forma como vivemos”. Assista à íntegra do evento em: cidadaovalorsantander.com.br

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