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Epoca - 2021-05-31

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A NOVA FRONTEIRA

HORIZONTE

Pedro Doria é colunista de O GLOBO, O Estado de S. Paulo e da CBN. Em 2015, recebeu o Prêmio Comunique-se de melhor jornalista brasileiro de Tecnologia. É o fundador do Canal Meio, além de autor de oito livros

por Pedro Doria Quem entende do assunto diz que o leilão do 5G não sai, no Brasil, antes de setembro. O Chile já pretende estar com sua infraestrutura acelerada até lá, com vistas a cobrir todo o país quando por aqui estivermos elegendo o próximo presidente. China e Estados Unidos estão numa competição por quem anda mais rápido — até março, já havia cobertura em 341 cidades chinesas e 279 americanas. Na Coreia do Sul são 85 e no Reino Unido 54, de acordo com a consultoria Viavi. Nas contas da Ericsson, mais de 200 milhões de pessoas já estão ligadas por redes super-rápidas. Mas o eterno adiamento ideológico do Brasil atrasa a entrada no futuro e nos coloca em profunda desvantagem nesta briga. Porque o 5G, afinal, não é apenas uma internet mais rápida no celular. A tecnologia é bem mais complexa e vai tão fundo na reinvenção dos ambientes em que vivemos que terminará por alterar nossas vidas de maneiras ainda não imaginadas. Nos próximos dez anos. É que o 5G vai digitalizar o mundo físico. Sim, a promessa é de um mundo de ficção científica. O supermercado no qual entramos e pegamos o que queremos sem passar pelo caixa. A loja de roupas que identifica a cliente na entrada, sabe que vestido ela viu no site e de cara já lhe oferece uma promoção. O Uber sem motorista e o robô que entrega pizza. O bueiro que, antes de entupir, já avisa à prefeitura para evitar a enchente. A lavoura que nunca é perdida porque, por mais vasta que seja a terra, nunca estará seca ou sem nutrientes. A criança no interior que precisa de uma cirurgia urgente e grave e pode ser atendida por um especialista a centenas de quilômetros, intermediado pelos dedos hábeis de outro robô. A casa que já dispara o ar-condicionado na temperatura da gente, acende a meia luz e ainda põe um Miles D avis para tocar, tudo no momento certo, porque, ora, ela já percebeu antes de chegarmos, pelos nossos batimentos, pelo suor que corre o rosto, que o dia foi duro e merecemos descanso. Foi o 4G que, de certa forma, nos passou a ilusão de que é velocidade o que muda em cada geração nova de celular. Mas não é. A 1G, que jamais foi chamada assim, inaugurou a ideia de um telefone que pudesse transitar pela cidade. É antiga, de 1970, e demorou décadas até ser implementada. A 2G também não foi apresentada a ninguém desse jeito. Mas era digital, e isso quer dizer que mensagens de texto por SMS eram possíveis de serem enviadas e, por meio de um protocolo chamado Edge, dava até para conectar computador e celular para oferecer na tela maior uma internet bastante precária. Já a 3G permitiu que os smartphones florescessem. Embora lenta, já tinha internet que permitisse navegar pela web, assistir a vídeos curtos. Então: a primeira fez nascer os celulares, a segunda os digitalizou e a terceira tornou os aparelhos máquinas multimídia sempre conectadas à internet. Aí veio o 4G, que deu à telefonia móvel banda larga, e assim hoje assistimos com conforto a uma série por streaming sentados à mesa do bar. O salto que o 5G dá é imenso. Pelo ângulo da rapidez, seu potencial é de alcançar velocidades muito maiores do que as bandas largas fixas já oferecidas no Brasil. Mas, simultaneamente, ele rompe outra barreira: a rede 5G pode interligar até 100 bilhões de aparelhos. Bom lembrar: não chegamos a 8 bilhões de humanos no planeta. Enquanto num quilômetro quadrado uma rede 4G é capaz de alimentar 4 mil aparelhos simultaneamente, a 5G liga 1 milhão no mesmo espaço. Não bastasse, o 5G tem baixa latência — e esse é um conceito importante. Imagine um rio. Um rio muito largo permite que muitos barcos trafeguem simultaneamente. Um rio estreito vai ter de fazê-los navegar em fila indiana. Isso é banda. Latência tem a ver com a velocidade da água. Quanto demora para o barco sair de um ponto e chegar ao outro. O 4G tem banda larga, mas é de alta latência. Demora para o barco chegar, embora muitos barcos trafeguem juntos. Além de ter muito mais banda, o 5G tem baixa latência. São ainda mais barcos juntos e eles vêm acelerados. Quer dizer. Uma quantidade imensa de dados sai de um ponto e chega ao outro quase instantaneamente. E é essa infraestrutura que vai construir o mundo no qual o físico ganha características digitais e permitirá a criação daquilo que antes só imaginávamos na ficção. Não é difícil entender o porquê. O carro autônomo na frente precisa avisar ao carro autônomo atrás que ele vai frear bruscamente. Essa informação precisa chegar instantaneamente para evitar um acidente. O 5G garante isso. É o mesmo com o robô cirurgião. Muitas operações são particularmente delicadas e exigem precisão. Se uma médica no Rio de Janeiro gira o joystick para afastar uma veia com a mão robótica sobre o corpo de um paciente em Manaus, é importante que entre o comando e a ação não exista intervalo de tempo. Tem de ser imediato. É o 5G que permitirá. Então junte a banda muito larga com a latência muito baixa e multiplique de forma absurda o número de aparelhos conectados. O 5G vai fazer o celular virar só mais um objeto entre os muitos digitais e conectados. Os óculos que usamos poderão estar na internet, o marca-passo, assim como o relógio que fica de olho na pressão e tem acelerômetro para detectar queda. Quando seu avô cair, você — ou o hospital — será imediatamente informado. A grande transformação está nos sensores conectados. O acelerômetro que mede a queda, claro, mas também muitos outros. É um sensor que percebe se um bueiro está entupindo. Outro avalia a temperatura e decide se liga o ar-condicionado ou se irriga um pouco mais as plantas. Um terceiro sensor funciona como um radar e informa caso algum objeto esteja em rota de colisão. Sensores de nível de luz decidem quando acender as lâmpadas. Sensores sutis poderão medir nossa taxa de oxigenação, a fluidez da sístole e da diástole e até se transpiramos demais. Câmeras são sensores potenciais quando inteligentes o bastante para identificar rostos, movimentos suspeitos ou só o momento exato de disparar aquela fotografia incrível. Esses sensores já existem. Não estão todos conectados simultaneamente. Cada maquininha destas, algumas do tamanho de uma unha ou menos, poderá estar on-line, enviando informação a um servidor em algum canto. Some, pois, esses tantos sensores conectados a outras duas tecnologias muito recentes: big data e o tipo de inteligência artificial que batizamos “aprendizado de máquina”. O nome já diz. Algoritmos que fazem máquinas aprenderem. Cada infarto monitorado por sensores vai gerar uma montanha de dados sobre como o corpo estava antes do acidente. E conforme o número de casos se acumula, os sistemas que avaliam os dados dos sensores se tornarão mais e mais precisos, capazes de avisar do perigo iminente com horas de antecedência que bastam para evitar a morte. Serão acidentes de trânsito impedidos por carros cada vez mais digitais — mesmo aqueles que ainda dirigimos. As possibilidades são infinitas — é a câmera da loja que perceberá pelos gestos de alguém um furto próximo. Ou as microexpressões do rosto que podem indicar uma depressão como o melhor psiquiatra não necessariamente enxerga. Omundo é de ficção científica, mas isso não quer dizer que é a realidade divertida dos Jetsons. Pode muito bem se tornar uma distopia como o 1984 de George Orwell, com um Grande Irmão — o Estado que tudo sabe sobre todos, e a toda hora. Ou a gigante do Vale do Silício — faz pouca diferença para quem é vigiado. Enquanto nossa vida digital está trancafiada naquelas poucas polegadas de tela dos celulares, a privacidade que, hoje, às vezes, parece um conceito abstrato não será quando entrarmos numa loja e ela nos cumprimentar pelo nome e nos oferecer produtos ao nosso gosto. Talvez até algumas transgressões. Quando, pelo movimento das câmeras pelas ruas, o Estado for capaz de determinar cada um de nossos passos. O seguro de saúde talvez queira nos dar um desconto inicial em troca de usarmos certos sensores — que dará a eles informação talvez excessiva sobre nossa saúde. Informação que poderá custar caro no futuro. Para não falar no que vai dar o conhecimento sobre aquelas buscas muito pessoais, que fazemos quando sozinhos, à noite, protegidos e em casa. O dilema da privacidade não é trivial. Câmeras em estádios lotados poderão identificar a presença de terroristas conhecidos, mas também de maridos infiéis. Poderão inocentar muitos que terão como provar onde estavam na noite do crime. Assim como poderão terminar cobrando mais caro por aquilo que precisamos muito — e o Grande Irmão saberá disso. Tudo indica que, movido pela paranoia anti-china do governo, o Brasil será um dos últimos a entrar no mundo do 5G. Isso quer dizer que não serão startups brasileiras que desenvolverão muitas das tecnologias que alimentarão a construção desse futuro. Quer dizer que teremos o 5G que os outros construíram. Que não participaremos da largada dos muitos debates éticos. Chegar tarde e ser só consumidor é a sina brasileira.

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