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Epoca - 2021-05-31

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ROTA DE FUGA

VIVI PARA CONTAR

Por Lucien Ahouangan em depoimento a Lucas Franca

A história do marfinense que escapou de uma guerra civil na África para se tornar o primeiro doutor formado em relações internacionais na Universidade do Estado do Rio de Janeiro Nasci na Costa do Marfim, na cidade de Abidjan. Em setembro de 2002, os embates tomaram as ruas e uma guerra civil se instalou no país. Eu morava com uma das minhas quatro irmãs em Bouaké, uma cidade que fica na região central. Tanto o lugar em que eu vivia quanto o lugar onde nasci foram muito afetados pelo conflito. Vi rebeldes atacando delegacias e matando todos que estavam dentro. Era chocante presenciar um marfinense matando o outro. Um conflito pode mudar as pessoas de um jeito inesperado. Chega um momento em que você só pensa: quando será minha vez? Quando a guerra começou, nós pensávamos que seria uma situação de um mês no máximo. Apesar de ver pessoas circulando armadas na cidade e no campo, do medo, tínhamos a convicção que tudo acabaria rápido. O tempo, porém, mostrou que estávamos errados. Quando ficou claro que não seria um conflito curto, tivemos de sair de Bouaké. Sair não, fugir. Usamos um caminho informal. Eu e minha irmã pegamos rotas dentro de florestas para poder chegar a outra região do país onde imaginávamos que o conflito estava mais suave. Mais um engano. Tivemos a certeza de que a situação era muito mais perigosa e difícil do que pensávamos. Entre novembro e dezembro de 2002, conseguimos ir para o Benin, a 1.200 quilômetros de casa. Meu pai, que morreu pouco antes de o conflito começar, em 2001, era de lá. Cheguei ao país e fui estudar Direito, com algumas disciplinas adicionais de ciência política e relações internacionais, na Universidade de Abomey-calavi. Fiz o curso até 2006, quando me formei. Mas, dois anos antes de me formar, algo me afetou muito. A França acusou a Costa do Marfim de ter bombardeado uma base militar francesa no país e, no ataque, ter matado nove soldados franceses. Para revidar, os franceses destruíram a frota aérea do governo marfinense. Quando isso aconteceu, a população ficou indignada e começou a fazer uma marcha contra. Como resposta, tiros foram disparados nos manifestantes, matando mais de 100 pessoas. A França minimizou o caso dizendo que eram menos de 20. Não era legal ver a antiga potência colonial atirar e matar civis. A história se repetia mais uma vez. Em 2008, tentei voltar para meu país, mas a situação não estava nada boa. Fiquei longe de casa até 2012. Era um período póseleitoral, um ar de pós-guerra, mas pequenas disputas ainda aconteciam, era tudo muito tenso. Foi quando eu decidi vir de vez para o Brasil. Falo isso porque o processo de conhecer o Brasil estava na minha mente, nos meus desejos, desde a época da escola, quando era adolescente. Na Costa do Marfim, nós tínhamos um programa de estudo que nos mostrava um país fora do continente africano e, em determinado momento, tive de decidir em qual nação eu estudaria, qual país pesquisaria mais a fundo: Brasil ou Japão. Pesquisei a história brasileira, vi semelhanças com países africanos e pensei que esse seria o lugar a que, ao sair do meu continente, eu iria. Esse sentimento me acompanhou por muito tempo até que decidi viajar para tentar construir uma nova vida após a guerra. Cheguei ao Rio de Janeiro em agosto de 2013. A realidade me chocou. As coisas aqui também não eram tão fáceis. Eu não esperava ver tanta desigualdade no Brasil, tanto racismo. No entanto, encontrei mais pessoas legais do que ruins. Enquanto eu dava aulas de francês para me sustentar, fui aprendendo português fora das salas de aula, conversando com as pessoas, vivendo a cidade. Tentei por mais de uma vez entrar em mestrados de várias universidades do Brasil. Tentei a Universidade de São Paulo (USP), tentei a Pontifícia Universidade Católica do Rio também. A língua era um entrave. Em julho de 2014, já mais bem adaptado, fiz o processo de mestrado em relações internacionais na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e passei. Já estava como solicitante de refúgio aqui no Brasil e tinha regulamentado minha formação do Benin para cá, o que facilitou minha entrada na universidade. Em março de 2017, apresentei a dissertação Uma (re)aproximação com a África Subsaariana: a estratégia da política externa brasileira de 2003 a 2010. Meu orientador, professor Maurício Santoro, me incentivou a entrar no doutorado. Fiz a avaliação em junho de 2017 e dei início ao curso dois meses depois, em agosto. Em maio, eu fui o primeiro aluno a se formar no doutorado do Programa de Pósgraduação em Relações Internacionais da Uerj. Eu sou da segunda turma do doutorado, de 2017, mas me formei antes dos meus colegas que entraram em 2016, quando a pós foi inaugurada. Apresentei minha tese, Resolução de conflitos e operação de manutenção da paz: a ONUCI (Operação das Nações Unidas na Costa do Marfim) de 2004 a 2017, com a orientação da professora Layla Dawood. A escolha do tema para a pesquisa foi óbvia: queria estudar algo relacionado à África, mas que tivesse me tocado pessoalmente, com que eu tivesse um laço direto. Foi uma forma de pensar no meu país. Tive de, ao escrever a tese, relembrar de tudo que vi e vivi. Parte dos estudos, de setembro de 2019 a agosto de 2020, eu fiz em Genebra, na Suíça. Fui à sede da ONU várias vezes e me inscrevi na biblioteca da organização para ter acesso a alguns documentos. A defesa do doutorado foi on-line, por causa da pandemia. Como a maioria das pessoas, eu só ficava em casa e aproveitava para escrever e estudar. Dei um pouco de sorte porque quando a pandemia chegou com tudo eu já tinha terminado as etapas do doutorado com aulas presenciais e já estava quase tudo feito, tinha até qualificado a pesquisa. Faltavam a defesa e a parte final da redação. Isso foi feito inteiramente on-line. Em novembro do ano passado, fui a Benin visitar minhas irmãs e rever colegas. Acabei ficando na França quando os voos pararam de circular novamente. Tenho três cidadanias: Costa do Marfim, Benin e Brasil. Meus próximos passos ainda estão em aberto. A vida me ensinou que sempre é possível achar uma saída. E vai ser assim agora na pandemia.

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